Li e senti muita coisa. Aprendi muito. Agora é hora da prática. Guardo aqui minhas histórias e descobertas desse mundo que antes fora tão nublado e agora acorda diferente na minha cama, todos os dias.
Porto do Sal é uma cidade inteiramente pintada de branco, as calçadas, as paredes, por toda parte os postes são brancos e imaculados. À noite, as mulheres vestem longos vestidos trabalhados com pérolas e cristais pequenos e andam pelas calçadas limpas olhando vitrines de vidro iluminadas por algumas velas muito brancas e com uma chama muito brilhante que parece um tipo de cachoeira nos dentes muito limpos que ficam rindo, rindo. Os homens andam de sapatos de verniz limpíssimos e enquanto flores parecidas com damas-da-noite caem no chão devagar. Crianças brincam no parque enquanto as mães tomam chá em xícaras de porcelana.
Toda cidade parece um tipo de hóstia durante o meio dia. Mas nenhum habitante olha na direção do céu. Durante o dia todo, nuvens tenebrosas negras e azuis petróleo varrem todo o céu, escondem as estrelas e a lua, ventos vermelhos riscam monstruosos as massas pesadas de chumbo e desenham pesadelos secretos, de vez em quando um trovão ilumina as cenas de estupro, assassinatos e suicídio. Um vento amargo que vem do sul doura tudo, queima e fuzila quando as nuvens laranjas do pôr-do-sol querem iluminar a cidade: branca, ela permanece e de longe se ouve dois sons: crianças rindo no parque e um choro sufocado.