Rápido, é como se eu precisasse de um segredo vermelho e laranja para que o dia inteiro pudesse correr, sente que ele está parado?, são as nuvens cinzas, a chuva secando devagar no chão, decidi vestir um sapato preto porque era como se eu precisasse manter meus pés protegidos do mundo e o negro me protege como a noite. Rápido, me dá a mão porque é como se eu viajasse e a grama indo tão longe na janela fosse uma continuação de um sonho de fecundidade que não pode crescer, sinto que amo profundamente e é mais profundo que eu posso medir, é profundo como um segredo. Enquanto eu dormia, choveu e eu não percebi que à partir dali eu não poderia continuar, havia um mar negro e sem espuma, um barco calado, nenhuma pegada na areia fria e gelada do ano novo, quero como a urgência de rezar alguma coisa que desperte, que desperte como um rio que aparece, eu precisaria de um rio inteiro para matar a minha sede porque é como se desde o início dos tempos eu precisasse de água, numa sede eterna de: absoluto momento quando se sorri depois do beijo. Vermelho, laranja e azul, é como (fecho os olhos), é como entregar-se para esquecer completamente.
Rápido, como um trovão, a chuva vem devagar e eu não tenho astrolábios, não tenho pêndulos, barcos e cordas, rápido porque me jogo ao mar em segredo num absoluto segredo de entardecer. E respiro. E respiro. Mandaram construir um trilho de trem entre nossas casas e não posso ver além dela porque o trem nunca termina, nunca termina. Às vezes, como numa memória, acho que te vejo acenando mas a vida grita, urgente: digite, seu trabalho, lembra? E digito. Porque não me pergunto muito, aprendi que às vezes, quando calo, é porque é uma ansiedade cinza; colocarei os pés na rua novamente, devagar, e meu mundo se encherá das coisas que eu encontrar: a grama verde, a terra vermelha, o céu de zinco frágil e os prédios duros sendo, sendo, num esforço contra o mundo as coisas são. E eu vou desviar da grama, da terra vermelha, do olhar profundo dos prédios descobertos e num sussurro que parece uma prece pedir: Deus?, dai-me. Porque preciso. E porque não sei mais viver sem. Rápido, como um segredo azul e laranja, me inunda de licor de laranja em taças de cobalto, rápido porque não sei mais rezar e minha avó anda com um terço pela casa, é como uma saudade crônica de estender a mão para dentro do lago das carpas gordas, laranjas!, dormir no meio do caminho esperando acordar tão longe, numa rodovia de árvores enganadoras, dormir debaixo do salgueiro, rápido porque o dia continua e eu não posso mais pedir.