Li e senti muita coisa. Aprendi muito. Agora é hora da prática. Guardo aqui minhas histórias e descobertas desse mundo que antes fora tão nublado e agora acorda diferente na minha cama, todos os dias.
um corpete, um vestido de veludo vermelho com cheiro do desodorante que minha mãe passava quando à noite ela saia, eu dormia no sofá esperando e as estrelas brilhavam todas lá em cima acima do telhado, atrás das nuvens, o barro sobre a cabeça com cabelo sem corte que dormia na frente da televisão e ouvia o ranger das portas; era porque demônios rodavam ao redor do giz traçado fracamente ao redor do meu mundo pelas avós, pelas avós rezando, não se perca, ouviu João?, e rezavam terços enquanto o bambu lá fora torcia, mulheres com vestidos vermelhos riam alto em algum lugar que eu teria esquecido se não fosse o perfume, se não fosse o apito tão forte, meu sangue em um fogo que parece o que é um álcool, cobri tudo de umas fitas que eu vi lançadas no vento, tanto vento, uma bandeira de branco sujo, pés descalços acho que procuravam alguma resposta da terra vermelha, o vício assoprava o explosivo mas o fogo apagado [ele não sabia, mas era assim mesmo: o vício é obsceno, ele é para ser lembrado como feito e não visto, se o vício explodisse sua labareda de chamas, talvez, de repente, desaparecesse e chovesse como chuva ácida que corrói a memória] e eu com uma bala doce, doce, doce, rosa e doce porque eu odeio tão fortemente o rosa?, mastiguei a bala com medo, medo de que me tocassem e eu tivesse que invariavelmente me mexer quando os tambores batessem - porque eu já me sentia um pouco torto, como se eu pudesse levantar a qualquer momento, perder as mãos nos olhos assustados dos outros e rodar, cair, algo no chão pulsa como um coração vivo, e agora eu sei sobre o que elas estavam rindo, sobre o que o mar se levanta e se deita, sobre o que os demônios estupram, meu medo invariável de homens sem camisa e do olhar enlouquecido dos que podem girar, girar sem cair, me seguro forte na cadeira porque sinto que eu posso respirar e de repente algo em mim estourará para sempre, um sol desenhado num canto em giz, sonhei há muito tempo com uma menina que se protegia dos outros dançando num círculo de giz na floresta e dormia lá à luz de uma única vela, quando o sol se pôs eu descobri que a minha tinha apagado e que eu estava desprotegido do lado de fora de dois círculos com demônios, sereias, minha mãe alta no banheiro se despedindo de mim e pedindo que eu me cuidasse, os olhos gordos e cansados de minha avó pedindo que eu comesse, a grama viva de bichos coloridos como pedras de um colar despedaçado numa escada, a lama nos meus cabelos imundos, mulheres de branco, homens de branco, um perfume barato que vi em um spray vermelho e, num surdo grito, tudo se foi, acho que foi o vento nos vestidos, o vento nos cabelos, o vento das mariposas à noite, aquele secreto que levanta tudo e parece um sopro na nuca antes de dormir, eles se foram embora numa curva, não sei se foram eles ou minha memória mas ouvi de longe tambores que anunciavam a vinda da chuva de leite sobre um círculo esfriando à noite.
[círculo,
sobre a apresentação da companhia caos no gramado da reitoria
eu lembro da tarde roxo suave como um lilás e esse texto para vocês]